Apraz-me hoje falar um pouco da época de consumismo que vivemos e como isso se pode repercutir na alimentação das crianças quando todos, atingidos por uma crise social e económica, podemos comprometer a alimentação infantil com uma absurda disponibilidade alimentar de produtos pouco ou nada saudáveis, mas a preços tão baixos...
Ao contrário de outros artigos que tenho escrito especificamente acerca da alimentação da criança, julgo ser o momento de sensibilizar também os pais, profissionais de educação e até restante família, para o cuidado que devem ter para a criança que "já come de tudo", o que pode ser um erro se o "tudo" representa recorrer a uma alimentação pouco saudável ou até inadequada para o seu correto desenvolvimento, como por exemplo o caso dos alimentos que veiculam cafeína... Alimentos como estes na sua dieta diária vão afinar a preferência infantil pelo sabor doce, desviar o apetite e consequente consumo de outros alimentos e nunca saciar a sede... desiquilibrando o seu estado de saúde!Um dos aspetos que merece toda a minha essência é a necessidade de sensibilizar as pessoas responsáveis pela alimentação infantil para que MANTENHAM, sobretudo a partir dos 3 anos, os cuidados alimentares que o pediatra, ou outro profissional responsável pela alimentação, orientou sobretudo nos primeiros anos de vida. Tenho constatado, infelizmente, que até devido a alguma liberdade que os pais, cansados, anseiam por conseguir, induzem inconscientemente a perda dos excelentes bons hábitos alimentares incutidos nos primeiros anos cedendo perante birras infantis, acelerar refeições tardias ou desapropriar a quantidade/qualidade alimentar...
A azáfama do dia-a-dia a isso impõe. As crianças, que se tornam então a partir dos 3 anos mais seletivas e conhecem os alimentos que mais apreciam, aliciadas por campanhas de marketing verdadeiramente agressivas, podem tornar a convivência familiar numa verdadeira batalha e é pois, necessário, saber recorrer a toda a estratégia possível para que, sem se perder o controlo, consiga-se evitar a catástrofe... que só vai evidenciar-se realmente anos mais tarde! Aproveitar para começar a envolvê-los na preparação das refeições e propor soluções originais (encontram aqui na Eats Real muito exemplos), é um passo que ajuda todo esse processo.
O que se vê claramente é uma preferência notória das crianças de alimentos ricos em sal (no rótulo aparece sódio), açúcar e essencialmente gordura trans (ou hidrogenada) onde a combinação destes 3 ingredientes no rótulo potencia uma palatibilidade única e muito atrativa, que rapidamente sacia as papilas gustativas da criança mas, erradamente, não satisfaz as necessidades energéticas infantis e em pouco mais de 2 horas, a criança revela novamente apetite recorrendo, se encontrar à sua disposição, snacks e outros alimentos que arruínam silenciosamente a sua saúde... O resultado é uma preferência descontrolada da criança por estes alimentos, comprometendo depois de implementada, o interesse pelo sabor de alimentos como o leite, a fruta ou a sopa,quando estes, indiretamente, foram sendo excluídos e substituídos por refrigerantes/ sumos, sobremesas prontas-a-comer/gelados, etc.
Considero também fundamental que os pais não se socorram de extremismos, impossibilitando a criança de comer batatas fritas ou um hamburger, por exemplo, pois este tipo de comida representa também, nos nossos dias, uma estranha forma de sociabilização, tão importantes para as idades em que as crianças se pretendem integrar em grupos das mesmas faixas etárias, reproduzindo comportamentos.
Penso que devem ser tomadas medidas para equilibrar todos os aspetos:
- Não compre alimentos que sabe serem pouco saudáveis. Se não os tiver em casa, não terá que dizer que não se as crianças os
quiserem comer. Tenha, contudo, o cuidado de assegurar algumas variedades que podem até ser calmantes num momento SOS de fome. considerando que o açucar, em quantidades reduzidas, pode até ter um efeito benéfico no organismos. Ex. compre bolachas que oferecem algum valor nutricional como as de aveia, com fruta, corintos, amêndoas, tendo sempre o cuidado de comparar o teor de açucar na avaliação nutricional (nunca deve exceder as 15g/100 g de produto);
- Muito cuidado com o excesso de sal (sódio) nos alimentos. Além de fazer muito mal à saúde pois desiquilibra o organismo, sobrecarrega os rins e agride a pressão sanguínea, o sal condiciona também a ingestão desmesurada de bebidas açúcaradas, estas sim em relação direta com a obesidade, ou excesso de peso, e com uma assustadora perda de apetite que compromete a ingestão de alimentos saudáveis e silenciosamente desajusta o bom funcionamento do organismo;
- Ofereça SEMPRE sopa antes das refeições: além de demover da refeição o apetite voraz para os alimentos que possam veicular gordura, ainda "forra" o estômago o que permitirá uma absorção mais ineficaz dos alimentos pouco saudáveis ingeridos a posteriori.
- Privilegie a qualidade dos alimentos que oferece. Citando o exemplo anterior, ofereça uma sopa substancial, caseira, rica em batata e legumes, e ignore as sopas industriais. Se chegou o dia para os congratular pela alimentação saudável que fizeram todo o mês, ofereça-lhes, estrategicamente, uma sopa saudável, mesmo se preferir, antes de sair de casa. E depois deixe-os comer o que quiserem... afinal já não vão conseguir comer tanto ;-) Mas não se esqueça de oferecer sempre a fruta, antes do gelado (ou outrodoce)! Leve-a pois consigo, em boiões 100% ou, melhor ainda, uma peça de fruta fácil de transportar como banana ou maçã, que descasca facilmente antes de lhe oferecer.
- Cuidado, muito cuidado com os alimentos saudáveis que podem ficar esquecidos. "Negoceie" as bolachas com leite branco ou as salsichas (perú!) com legumes. Apresente sempre o que eles querem comer com aquilo que eles devem comer, como os legumes e o leite. Mas não abuse das quantidades. Doses medianas, ajustadas ao apetite da criança, fazendo várias refeições ao dia, representam uma prática salutar!
- Por último, vigie sempre escrupulosamente, os intervalos das refeições. Não deixe nunca, e ainda que não haja evidentes sinais de alarme, para que não decorram mais de 3h30 sobre a refeição anterior. Promova a refeição, sentando as crianças e convidando a comer os alimentos saudáveis que coloca em cima da mesa. Ricos em hidratos de carbono (pão, cereais, sopa) para que, saciem durante um período mais longo.
E lembre-se: deve sempre imperar o exemplo. Por isso, tire partido destas fases etárias tão seletivas (entre os 2 e os 5 anos), e trabalhosas, e brinde toda a família com uma alimentação saudável que privilegiará o bem-estar de todos, em pouco tempo!


